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Artigos - Gestação e Parto

A Maternidade é uma ilha

A Maternidade é uma ilha

“Ser mãe é padecer no paraíso.” Essa frase é conhecida por todos nós e faz parte de uma poesia do início do século passado. Porém, embora tenha sido amplamente repetida, ela não explica nas entrelinhas que esse suposto paraíso é, na verdade, uma ilha. A maternidade atual é solitária, e cercada de mitos por todos os lados. A geração de mães que vive hoje nas grandes cidades, muitas vezes tem a difícil tarefa de cuidar, sozinha, de um bebê que acabou de nascer. São mulheres que, na maioria das vezes, tiveram pouca ou nenhuma experiência anterior no cuidado com recém-nascidos, pois a nossa realidade social atual constitui-se de famílias reduzidas e isoladas umas das outras. Por isso, quase sem nenhuma ajuda e conhecimento prático, essas mulheres se veem, repentinamente, lançadas nessa difícil e intensa missão.

Historicamente, vemos que as mulheres sempre tiveram o costume de criar seus filhos em grupos. Viviam em grandes famílias, ou em vilas e pequenos povoados. Contavam com a ajuda de parentes, vizinhas ou outras mulheres mais experientes, e as crianças cresciam e  brincavam em espaços comuns. Mas com a mudança conjuntural do nosso século, a vida nas grandes cidades trouxe o isolamento e o individualismo.

Durante a gestação, as mães de hoje são convencidas de que o necessário para a maternidade é adquirir os itens indispensáveis do enxoval. Buscam suprir seus lares com todo tipo de produto anunciado como imprescindível, mas muitas vezes não se abastecem de informações e não preparam seu psiquismo para a grande mudança que a maternidade traz. O mito da mãe feliz e do bebê tranquilo, difundido nas propagandas e na mídia, é desmistificado nos primeiros dias. A mãe é inundada por sentimentos e sensações que não esperava. Angústia, alegria, medo, perda de identidade, cansaço, admiração, amor, solidão...

Para conseguir apoiar e cuidar do bebê, as mulheres também precisam receber esse mesmo apoio e cuidado. Em algumas situações, elas dispõem de alguém presente e capaz de fornecer esse amparo. Porém, pode acontecer de serem cercadas por pessoas que, no intuito de ajudar, invadem sua privacidade e ditam regras e conselhos. A licença-paternidade de poucos dias também impede que o pai do bebê participe mais ativamente desse momento. Em pouco tempo, ele precisa voltar à antiga rotina e a mãe sente-se estranha em seu novo papel. Sempre acostumada à independência e à vida profissional, ela se vê dependente e, ao mesmo tempo, responsável por um outro ser que demanda atenção e dedicação durante todo o tempo.  

A experiência da maternidade conduz a certas fronteiras psíquicas, em que sentimentos e lembranças que pareciam enterrados ou esquecidos, parecem transbordar, enquanto outros novos sentimentos são experimentados pela primeira vez. No trabalho que realizamos com grupos de mães, vemos que o puerpério é traduzido em palavras como solidão, mudança, isolamento, dependência e introspecção. As mães anseiam em poder partilhar suas dúvidas, reduzir sua ansiedade e compreender-se nesse novo papel. O círculo de amigos muitas vezes precisa ser renovado, já que os assuntos tornam-se outros, e o que antes parecia estranho, se torna corriqueiro, como mamadas, sono, cólicas e cocôs. Por isso a importância de se multiplicarem os grupos e espaços de convivência, que sirvam como locais de apoio, acolhimento e troca de saberes para essas mães.

A maternidade é intensa e solitária, e em grande parte é socialmente negada. A sociedade finge não ver o papel crucial que os primeiros meses e anos de vida têm no desenvolvimento de um novo ser e na promoção de um futuro melhor. As mulheres que optam por reduzir sua carga de trabalho, ou mesmo se dedicar a seus filhos em tempo integral, são criticadas e incompreendidas. A ampliação da licença-maternidade é vista como prejuízo econômico. Não há tempo a perder com o novo ser que chega ao mundo e necessita de sua mãe. Não há tempo a perder com o apoio a essa mãe, para que possa cuidar e amparar esse novo ser.

É urgente e necessário que se amplie o olhar sobre a maternidade para que as próprias mães possam se reconhecer e se valorizar em seu papel. Que se considere a divisão de tarefas e a participação maior dos pais nesse momento tão crucial. É preciso auxiliar e apoiar as mães a transporem essa ilha e atravessarem os mares em busca de uma maior realização e integração de suas identidades. Dessa forma, elas serão emocionalmente capazes de se conectar com seus bebês desde a gestação e no período após o nascimento, acolhendo-os em suas necessidades e suprindo-os em seu afeto, e assim contribuindo para o crescimento de uma nova consciência, de uma sociedade mais justa e humana, para todos.

Renata Frossard

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