Disable Preloader

Relatos de Amamentação

Clarissa: mãe do Henrique e da Helena
mãe do Henrique e da Helena

Gente, mas por quê??? Por que eu não posso ter orgulho disso? Juro que não consigo entender... Se você passa no vestibular, se você casa, se você consegue um emprego melhor, passa em um concurso público, compra um lugar para morar, enfim, se você consegue qualquer outra conquista, as pessoas te aplaudem e te parabenizam. Mesmo dentre aquelas que não conseguiram nada disso, ninguém vai te criticar por você ter conseguido e por estar feliz por isso. Mas no universo materno, parece que há uma inversão. Se você tem orgulho de amamentar, para cada pessoa que te apoia e celebra sua felicidade, duas se ofenderão e te criticarão por estar demonstrando seu orgulho.

Eu faço questão de demonstrar o quanto sou feliz e orgulhosa por amamentar! E faço isso por mim e não pelos outros. Que fique claro: isso não significa que eu reprove ou critique quem não o fez, assim como isso não quer dizer que eu seja melhor ou pior do que ninguém. Até porque eu entendo, juro que entendo, aquelas que desistiram ou nem tentaram. Se você ler meu relato até o fim, vai entender o porquê da minha compreensão.

Enfim... eu só quero ter o direito de falar sobre isso sem que eu pareça ser metida, doida, ou uma ativista sem noção.

Apenas um parêntese: eu não tive parto normal. Por uma série de motivos que não cabe aqui explicar, eu não consegui, apesar de querer muito mesmo. E nem por isso me ofendo quando leio lindos relatos de gente que conseguiu! Fecho o parêntese.

Tenho dois filhos com diferença de idade de 1 ano e 9 meses. Praticamente emendei uma amamentação na outra. Após ter passado todo aquele perrengue de mãe de primeira viagem com o primeiro – que incluem dificuldades na pega, bicos rachados, peito cheio demais, depois peito vazio demais – achei que a segunda experiência seria mais fácil.

Quando peguei minha segunda benção nos braços, logo a levei ao meu peito. E ela sugou com uma força tão grande que meu corpo se envolveu novamente daquela sensação divina que só a amamentação me traz. Na mesma hora, pensei: amamentar a Helena será mais tranquilo, sem medo, e nós duas só teremos prazer.

Logo na primeira semana, com a força que aquela gorduchinha tinha, meus seios racharam. Sangravam a ponto de escorrer e manchar minhas roupas. E não adiantava corrigir pega (isso foi uma coisa que aprendi... dependendo da força que seu bebê tem e do tipo do seu bico, seus seios irão rachar até calejar), rachava e sangrava mesmo.

Eu entoava o mantra do “respira fundo, controla a dor e vamos lá”.

Depois vieram as mastites. Nos dois primeiros meses eu produzia uma quantidade enoooorme de leite. Parecia que meu peito explodiria. Se eu esgotava o leite, meu corpo produzia mais. Se eu não esgotava, o peito empedrava e logo vinha uma mastite. Febre alta, antibiótico, mal estar. E tudo de novo. Respira fundo e vamos lá!

Ver que minha filha engordava, se desenvolvia bem e demonstrava um prazer indescritível quando estava no meu seio, me fazia esquecer a dificuldade.

Até que ela começou a vomitar. O que antes era só regurgitação, virou vômito. De lavar a sala! E com os vômitos, começou a perda de peso.

O primeiro “palpite” da pediatra foi falta de leite. Perdeu peso, vamos complementar. É assim que a maioria faz, né? Mas como a pediatra da Helena é de uma humanidade ímpar, pedi a ela mais uma semana antes de complementar. Sim, se fosse realmente preciso, eu complementaria. Não deixaria minha filha passar fome, claro que não.

Chamei uma enfermeira especialista, super experiente, que já havia me socorrido quando amamentei o primogênito. Ela acompanhou a amamentação toda e depois que minha pequena já estava satisfeita, extraímos o leite que havia “sobrado”. Era suficiente para mais dois bebês, tranquilamente.

Bem, então a perda de peso não era fome.

E aí começou uma série de exames e consultas até o diagnóstico: APLV (alergia à proteína do leite de vaca). Eu que nunca tinha ouvido falar nisso, em uma semana já estava expert. Li tudo o que encontrei a respeito, artigos médicos, relatos de outras mães, encartes...

Começou, então, uma nova fase. Para que eu pudesse continuar amamentando, precisaria passar por uma dieta rigorosíssima. Primeiro tirei todo o leite e suas proteínas e descobri que até na coca-cola vai corante caramelo que é feito com uma proteína do leite. Não adiantou totalmente. Aí lá se foi o glúten, amendoim, frutos do mar, ovos... Mudei o shampoo e meus cosméticos (pois continham glúten) e passei horas me dedicando a uma nova modalidade de leitura – a de rótulos. Passei meses sem poder comer fora de casa, por causa da contaminação cruzada. Nunca comi tanto macarrão (de quinoa ou de milho) com molho de tomate.

Enfim o resultado apareceu. A Helena voltou a engordar, parou de vomitar e o choro foi embora, como mágica.

Foram seis meses de amamentação exclusiva. Seis meses nos quais tudo o que minha filha precisou para sobreviver e se desenvolver foi o meu amor em forma de alimento. Seis meses em que eu, e só eu, nutri minha filha e de quebra ainda fortaleci nossos laços, nossa cumplicidade, nosso amor.

Nesses seis meses, a Helena me fez ver que sou mais persistente do que imaginava. Sou mais forte do que pensava. Sou mais dedicada do que sonhava ser.

E mais imperfeita do que gostaria, obviamente.

Mas, enfim... depois de tudo isso, me digam... Posso me orgulhar em paz, sem que ninguém me julgue, me critique, ou se ofenda?

Compartilhar: