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Relatos de Amamentação

Francy: mãe do Joaquim - uma amamentação interrompida.
mãe do Joaquim - uma amamentação interrompida.

Desde que o Joaquim nasceu, a amamentação se deu de forma muito livre e natural, para ambos. Ele foi ao peito assim que nasceu, mamou bem, pega perfeita. Eu tive leite desde a primeira mamada. Sofri alguns dos tropeços mais comuns do início da lactação: fissuras, mamilos sensibilizados, uma pequena mastite no seio esquerdo, que foi curada com muita ordenha e sem medicamentos.

Quando falo que levei a lactação com leveza e liberdade, quero dizer que não estabeleci prazos, regras, ou nada que não viesse da nossa demanda e da nossa vontade, de mãe e filho se conectarem dessa forma tão sublime, carinhosa e poderosa que é a amamentação. Um passo de cada vez, uma expectativa por vez. Primeiro os seis meses de aleitamento materno exclusivo, que se estenderam até 1 ano praticamente, pois até então o leite materno foi a principal fonte de nutrição que ele teve, visto que a alimentação complementar não tinha uma regularidade da parte dele: as vezes comia super bem. Aí passava dias sem o menor interesse na comida. Mas a minha consciência tranquila por saber que o leite materno cumpria sua função de principal fonte de nutrição.

Joaquim foi um bebe (e ainda é!) muito ativo e esperto. Dormia pouco, mamava muito. Essa rotina de mamadas a cada hora estendeu-se até 1 ano de idade, quando eu planejava, em seis meses realizar um desmame noturno em busca de umas preciosas horas de sono.

Ainda estava no processo de leitura e aprendizagem das técnicas, me habituando às técnicas de Gordon e da Tracy (Soluções para noites sem choro), e planejando uma forma gentil e amável de desassociar o peito do sono a partir dos 18 meses, quando descobri que estava com papilomas no bico do seio.

Já fazia alguns meses que as mamadas estavam sendo difíceis e doloridas e que eu sentia (e via) que algo não estava normal. No entanto, o medo de uma ordem de desmame me fez ir protelando uma situação que chegou ao limite. Quando as dores tornaram-se insuportáveis, e meus mamilos muito feridos. Tirei algumas fotos e mostrei para duas amigas na internet em busca de um conselho amigo. Foi quando percebi que deixei ir longe demais. Vendo as fotos eu percebi que eu estava lutando para não enxergar o óbvio: que eu precisava de tratamento.

Entrei em contato com a Simone do Aleitamento Materno Solidário, descrevi a situação em que me encontrava, mandei fotos e ela, muito amável e prestativa, me orientou a buscar um mastologista. Abri o jogo com meu marido. Sofremos. Instalou-se muitos medos: do desmame não planejado e da minha saúde.

Amamentava chorando de dor e com a cabeça cheia de paranoias. Os médicos da minha cidade estavam lotados, indisponíveis e em férias. Meu marido conseguiu encaixe em um mastologista de outra cidade e fomos para lá. O diagnóstico: papilomas. A causa: um crescimento desordenado de células. Tumor? Viral? Hormonal? Teria que operar e fazer a biópsia. Pelo fato de que podia ser viral veio a orientação de desmame e também de cirurgia.

Muitas e muitas conversas diárias com a Simone. Que buscava informação e dividia o assunto com médicos e especialistas amigos dela, e diariamente entrava em contato comigo para irmos trocando informações.

Começamos em casa então o desmame noturno inspirado na técnica de Gordon. Escolhi um horário, que era das 23 as 6, para que ele não mamasse. Ele ia dormir por volta das 20 horas, e acorda 2 ou 3 vezes até as 23 horas. Eu amamentei em livre demanda até esse horário. A partir das 23 eu ia para o outro quarto e o pai tomava conta até as 6. Foram 6 dias nesse processo.

No primeiro dia ele acordou, não chorou, mas resmungou e reclamou uns 40 minutos no colo do pai até adormecer novamente, e acordava de hora em hora. Os dias seguintes não tiveram padrão. Um dia dormiu cerca de 3 horas seguidas entre uma acordada e outra. E, outra noite acordou mais de 10 vezes em menos de 5 horas. As mamadas de dia continuaram normais, como era muito colorido eu apenas conversava com ele, explicando que íamos diminuir, que a mamãe precisava se cuidar e fazer um tratamento, que íamos trocar amor de outras formas. Brincava muito com ele de dia. Sentávamos no chão, montávamos lego, desenhávamos... Fiz questão de ser muito mais participativa nas atividades, relegando a casa e outros afazeres para segundo plano. A noite eu me despedia, e dizia que voltaria quando tivesse sol. No sétimo dia o pai pediu arrego. Estava muito cansado e eu voltei para o quarto para cuidar do Joaquim.

Pensei que o plano iria por água abaixo. Como iria praticar cama compartilhada e negar peito durante a noite? Amamentei para dormir, e na próxima acordada o aconcheguei em cima de mim e voltou a dormir. E assim foram as noites seguintes. Sem choro, sem traumas, sem desamparo. Chegou a hora de ir diminuindo as mamadas diurnas. Limitei a amamentação para o sono apenas. Uma para a soneca da manhã. Outra para a soneca da tarde. E por fim, antes de dormir. E conversa, conversa, conversa... Falava tudo para ele. Chorei, compartilhei meus medos e frustrações. E explicava que não era culpa dele, e que tudo ia ficar bem. Até que o amamentei para dormir numa sexta-feira a noite. Dormiu a noite toda. Acordou no sábado, tomou café da manhã, fomos para a natação, e na volta dormiu no carro. A tarde, dormiu durante o passeio de carrinho. E a noite foi passear na casa da avó e voltou dormindo. 24 horas sem amamentar! Aliviava os seios com ordenha, com pouco estimulo. Domingo chegou e aceitou a soneca no colo assistindo desenho. A tarde passeou e dormiu no carro novamente. E não pediu mais para mamar. Quem se sentiu desmamada fui eu.

Gente, não é fácil esse processo unilateral de desmame. E a pior parte fica com a gente. Tive momentos depressivos. Senti-me inútil, abandonada, sozinha, incapaz, doente, frustrada... Ajudou desabafar com algumas pessoas de valor que tenho, desabafar com a terapeuta (comecei a fazer terapia) e principalmente, desabafar com meu filho.

Nunca imaginei ter que liderar um processo de desmame nessa idade. Nunca imaginei que doeria tanto. Nunca imaginei que sentiria tantas saudades.

Hoje Joaquim toma leite de aveia 3-4x ao dia como complementação à alimentação, sendo que uma dessas doses é para dormir às 20 horas e outra entre 4-5 horas da manhã. Dorme ninado no colo. Continuamos com a CC. Acorda a noite algumas vezes, me vê, se aconchega em meu corpo e volta a dormir.

Obrigada a Simone, que angariou ajuda de muitos especialistas para me ajudar, reunindo conversas virtuais entre nós e que me proporcionou maior conforto com sua experiência e calma. Obrigada Elisama e Stheffany Nering por ficarem mais de 1 hora comigo ao telefone, me ajudando, de dando apoio e força.  Teka, Amanda, Pamela, Camilla, Ana, Karinne, Lara, Luciana, Talita, Viviane, Patricia, Tiaia, Chênia... que também me deram força para levar esse processo adiante.

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