Disable Preloader

Relatos de Parto

Heidi: Nascimento do Lucca: Parto Domiciliar em Maringá
Nascimento do Lucca: Parto Domiciliar em Maringá

Sentimentos...

Tranquilidade, muita mas muita tranquilidade.  Não imaginava que eu ia dar à luz naquele dia... não tinha a menor ideia.  O trabalho de parto começou suavemente... as águas começaram a descer e era de noite.  A bolsa vazava levemente com as contrações de ensaio... a parteira veio... ela viu que estava tudo bem... o friozinho na barriga que subia até a garganta... sorriso estampado no meu rosto.  Ainda muita calma.  

Flutuando...

O sentimento era igual ao sentimento do primeiro beijo... quando você sabe que algo muito bom vai acontecer, mas não tem a menor ideia de como vai ser.  Eu e o meu amor fomos caminhar.  Era já de madrugada.  De mãos dadas, descemos e subimos as ruas perto de casa... Nunca vi o meu marido mais calmo.  Ele estava em paz, tranquilo, totalmente dedicado a mim e a nosso filho prestes a nascer.  Demos duas voltas no quarteirão, pedi para dar mais uma.  Senti aquele frio na barriga esquentando… o que eu sentia não era dor... eram ondas de pressão vindo desde de dentro e contraindo.  A lombar e o pé da barriga esquentavam quando vinham as ondas.  Já estavam muito fortes.  Eu sabia que a hora estava se aproximando.  Não precisou cair a ficha, porque tudo fluiu tão naturalmente.  

Salto na água gelada...

A próxima fase parecia aquele primeiro pulo que se dá no lago bem gelado.  No começo, um pouco de adrenalina... depois, o choque surpreende e tira o fôlego... mas acaba sendo uma delícia.  As ondas vinham e iam.  Estavam me levando para um mundo que as parteiras e doulas chamam de partolândia...

A partolândia é um lugar que cada mulher tem no interior mais profundo dela... um lugar tão profundo que somente através das ondas, ela enxerga que aquele lugar existe... um lugar tão distante de tudo, que ela não precisa mais de palavras, de ideias, de teorias... nesse lugar, ela é a pessoa mais poderosa, pois é nesse lugar que ela encontra a verdadeira força que tem.  

E eu estava indo, com cada onda que tomava conta de mim, para aquele lugar.  Deixei me levar.  Joguei tudo fora.  Chuveiro.  Água caindo quente nas minhas costas.  Chegou meu marido com a parteira e a doula... não lembro do que foi falado ou não, mas lembro que os olhos delas transmitiam paz, firmeza e segurança.  Dispostas a serem meus braços quando eles não tinham mais forças, a serem minhas pernas quando elas tremiam, a serem a minha forca e a minha anestesia.  Dispostas a fazer tudo e nada.

Submersa...

Agora as ondas me consumiam... o poder abrangente delas me dava mais forças para a próxima...  vinham uma atrás da outra, às vezes duas coladas sem descanso.  Todos os métodos para lidar com “contrações” que eu tanto tinha estudado, simplesmente não existiam mais.  As teorias despedaçaram na minha frente... nem a Yoga, nem massagem, nem a respiração profunda em forma de J, nem o hipnobirthing, nem a meditação, nem o uso da bola de pilates... nem qualquer outro método para lidar com a dor que eu já tinha praticado aliviava as “dores”... por quê?  Porque não era dor.  Era só eu e as ondas.  Não precisava fugir delas não... eu precisava vivê-las intensamente.  Quando elas vinham, respirava raso, curto e rápido... e rebolava.  Testa franzida, olhos longe, boca aberta, rebolava. Tocava o CD de uma amiga de alma, música celta com flautas, harpas e violino.

Mergulhei no olhar calmo do meu marido... só o mar dos seus olhos fazia as ondas parecerem mais leves.  Ele passava as mãos tão suavemente sobre meus braços... começando nos ombros, e baixando até as minhas mãos... tirando todo o peso de cima de mim.  Ele sorriu para mim... Sorriso.

Debaixo da cachoeira...

A parteira colocava a mão suave na minha barriga e, numa voz baixa e um pouco grave murmurava, “oooiiii Luuuucca... é isso aí... estamos aqui te esperando Lucca... pode vir” e vinham as ondas mais fortes...  ela escutava ele e ele escutava ela.  A doula cheirava a lavanda e paz.  A mera presença dela foi meu remédio.  

Achei refúgio na partolândia...  lá só tinha música de flauta... o ar de lá tinha o calor de um abraço e cheirava a lavanda...  lá tinha pouca luz, igual luz de vela… de repente eu ouvi alguém me chamando de longe, “Heidi, eu vou precisar fazer o toque...”  olhei para cima, a parteira me convidando a deitar na cama para ver a dilatação...  Informação que para mim, não fazia muito sentido, pois ele estava nascendo.  Deitei.  E assim ondas culminavam numa grande cachoeira que quebrava em cima de mim, se eu ficasse deitada, seguramente ia afogar!  Assim que terminou o toque, pulei da cama e fique de pé para rebolar e respirar raso, quase só soprinhos.  “Preciso entrar na piscina, preciso estar na água” as únicas palavras que consegui sussurrar.  Meu corpo já fazia força sozinho...

Transição...

Os minutos mais demorados foram aqueles quando estavam enchendo a piscina... pensei silenciosamente em segredo, “será que ainda dá pra entrar no carro, correr pro hospital e fazer uma cesárea?!” a resposta, uma onda me tirou o fôlego... nem pensar...

Nadando...

Um pé, dois pés, ajoelhada na piscina... aaaaaaahhhh... derreti... o meu amor do meu lado, ajoelhado também, jogava uma corrente de água quente na minha lombar.  Eu me sentia uma deusa num spa... até vir outra onda... agora EU não era mais EU... era apenas um meio para a chegada de um novo ser... eu não existia... banquetinha de parto, a mão do meu marido, força involuntária, muita força.  Quando vinham as ondas, o corpo inteiro respondia...  

De repente, um momento de descanso, e um retorno à realidade, tudo estava real demais.  Medo, incerteza, ou melhor dito, certeza!  Certeza de que uma pessoa não ia conseguir sair de dentro de mim!  Certeza de que não era natural!  Senti o cabelinho... queria guardá-lo de volta!  

“Heeeeidi... deixa ele sair”… eu não estava convencida… “Deixa ele sair”,  a voz da parteira era doce, calma e firme.  Uma onda tomou conta de mim e tomei coragem de deixá-la me levar até o final... todas as forças do meu corpo se juntaram para abrir o caminho e deixar nascer a cabecinha... respiro, respiro, olho nos olhos da parteira e deixo ele sair.... sair nadando, flutuando, submerso no mesmo meio onde ele passou os nove meses... até as mãos da parteira e do meu marido que ergueram ele e o entregaram no meu colo!  Quentinho, escorregadio, chorando alto, de olhos estalados!  Minha pele e a dele!  A mãozinha dele grudada em torno do meu dedo!  Meu filho!!! Oh, meu filho!!!  Meu filho nasceu e junto com ele nasceu uma mãe e um pai!  A família nasceu, e os três choramos juntos!  Naquele momento só existia nós três...  sem rostos estranhos, sem procedimentos, sem rotinas, sem pressa de tirar ele de nós.  

O cordão parou de pulsar e foi cortado pelo meu marido, completando a fase da gestação intra-uterina.  Dia 5 de Novembro de 2012.  3 quilos, 51cm.  Lucca.  Lucca Dylan.  Foi para os braços do pai.  Depois, a enfermeira cuidou dele com muito carinho, sem invasões, sem agulhas.  Placenta.  Chuveiro.  Cama, minha cama, meus lençóis, meu roupão, meu filho nos braços.  Levei ele ao peito, mas a primeira mamada dele aconteceu só depois.  Comemoramos.  Suco de uva verde.  Água-de-coco.  Pontos.  Filho de volta aos meus braços, mamou... dos dois lados!  Fotos.  Sentindo muito agradecida.  Beijo do marido... e que beijo!

O avô acordou com o primeiro choro do neném... tomou banho e veio para o quarto conhecer o neto que tinha acabado de nascer.  Vieram o tio e o primo, os padrinhos.  Muitos sorrisos.  O que aconteceu depois estava cheio de horas, pesos, medidas, números, e tal.  Detalhes que eu nunca esquecerei, mas até hoje, os momentos mais inesquecíveis são aqueles momentos quando estamos só nos três... na cama, no quarto, ao lado do banheiro onde ele nasceu.  Ainda consigo fugir por um instante para aquele lugar de paz dentro de mim, quando ele está no peito pele a pele.  Ainda some tudo e nós voltamos a ser um de novo.  Amor.

Essa foi a minha experiência.  E eu não sou a única a passar por isso.  Não sou a única que teve um parto maravilhoso.  O parto foi extremamente seguro, mas essa história é um pouco perigosa.  O perigo de eu ter te contado minha história é de ter plantado uma semente na sua mente.  Uma semente que começa a derrubar os mitos que sempre foram contados para você, de que parto é o cumulo da dor e sofrimento da mulher.  Você já tem as informações na mão, derrubando esses mitos, e agora tem esse testemunho de primeira mão... é perigoso sim, é perigoso você também querer trazer seu filho ao mundo na paz, tranquilidade e aconchego do seu lar, com sua família ao seu lado.

 

A continuação dessa história pertence a você … :)

 

Compartilhar: