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Relatos de Parto

Marise: Nascimento do Vinícius - Parto Natural Humanizado
Nascimento do Vinícius - Parto Natural Humanizado

Foi nesse vai e vem de conflitos, tentativas e questionamentos que decidi que eu deveria, mesmo que de forma singela, descrever um pouco do que vivi no dia 03 de novembro de 2013. Duas causas me motivaram a isto: a primeira porque pode ser que me ajude a entender melhor o que vivi e a segunda porque acredito que isto possa movimentar as futuras mães a acreditarem mais em si, e assim, se empoderarem para a experiência de um parto mais humanizado.

A espera.

Data prevista para o parto 25 de outubro de 2013, em que completaríamos 40 semanas de gestação. Neste dia eu já estava na casa de meus pais há uma semana, isso porque não fiz o parto na cidade em que resido atualmente. Hoje, fazendo um esforço grande de rememorar o que eu vivi, exatamente neste dia, não me vem uma lembrança sequer, a não ser a espera constante da chegada do meu filho. Bom, essa espera só estava no começo, pois Vinícius nasceu no dia 03 de novembro de 2013, com 41 semanas e 1 dia. Hoje, parece pouco tempo, uma semana e dois dias depois do previsto, mas na época foram dias muito longos de muita ansiedade e caminhadas. Ah como caminhei com o Diego! Conhecemos todos os parques da cidade, ficávamos com as pernas doendo de tanto caminhar. Eu até sentia alguns pródromos, passei duas noites sem dormir e nada. Estava tudo muito confuso, pois sentia dores de verdade, por duas vezes parecia que o grande momento estava chegando, mas quando o dia começava a clarear tudo estava intacto, como se nada tivesse acontecido com o meu corpo.

Nesta espera, contamos com nossas consultas ao médico. Eu sempre chegava com o coração na mão, mas saía feliz e contente com a paciência na fala e tendo a certeza de que tudo estava bem e que o correto era esperar, esperar, esperar... Com o passar dos dias, das horas, percebi que as escolhas, as sensações, não dependiam mais de mim, era como se o controle das coisas, que achei que um dia tivesse, já tinha se perdido, e de fato tinha... no momento de espera do meu filho, comecei a descobrir que ser mãe, parir e viver intensamente a maternidade é perder o controle de tudo, é viver o descontrole, o desconhecido, o constante desafio, e mesmo assim ter que confiar e acreditar que tudo vai dar certo, que teríamos a nossa hora e que ele chegaria quando quisesse.

A chegada.

Quando entramos na quadragésima primeira semana a espera tornou-se parte de mim, pois percebi que eu deveria estar ali, pronta ou não, esperando ou não, somente estar ali e viver o que era pra ser vivido, sem tempo e nem espaço. E quando me dei conta de tudo isso, eis que acordo às 9h do domingo (03/11) com contrações de 15 em 15 minutos. Fiquei firme! Anunciei só para o Diego o que estava acontecendo, já que eu tinha tido contrações alguns dias atrás e nada. E ele, ao mesmo tempo tão fascinado e atento, se pôs a me encorajar. Começaram as massagens, os carinhos, as declarações de amor, a atenção infinita, o olhar doce... ele tinha uma precisão nas palavras, nos gestos, sabia o que era para ser feito. Minha mãe também muito atenta a tudo o que eu fazia, logo percebeu que eu estava com dores, e pôs o resto da família a passear. Também contei com suas massagens, seus carinhos, sua atenção e confiança.

Na hora do almoço as contrações estavam de 10 em 10 minutos, mas mesmo assim consegui almoçar. Me lembro que o sabor da comida já não era tão importante, pois as dores, o medo, a alegria me envolviam te tal forma, que passei a acreditar que o grande dia tinha chegado. Às 14h, no intervalo entre uma contração e outra disse para o Diego (que estava como uma sombra em mim): - É hoje, ligue para a doula, para o médico, liga rápido! E ele muito calmo e sereno, como sempre, atendeu ao meu pedido.

Nosso primeiro contato foi com nossa doula, Renata, que por feliz coincidência estava participando do aniversário de seus filhos e disse que conversaria com a outra doula e logo viria em seguida, e assim pude contar com nossa segunda doula a Mayara, que veio prontamente nos atender. O processo de acolhimento começou! Quando a Mayara chegou à casa dos meus pais foi um alívio, tive mais algumas contrações e descobri verdadeiramente o que são mãos de fadas. A Mayara massageava minha lombar com tanta delicadeza e precisão, que logo pensei que tudo estaria resolvido. Contudo, depois um tempo corri para o banheiro e eis que vejo o tampão e muito sangue. Olhei para Diego, Mayara e minha mãe, que estavam apreensivos na porta do banheiro e disse que eu queria ir para o hospital. E o rebuliço começou! Todos se organizando, correndo de um lado para outro, uma mistura de angústia e realização, de dor e felicidade... e assim seguimos para o hospital.

No hospital.

Chegando lá, mais ou menos às 17h, ainda na recepção do hospital, nosso médico chegou com um sorriso no rosto, discreto e feliz, apertou minha mão, mas não consegui retribuir, pois as contrações já estavam de 5 em 5 minutos. Pedi para que ele fizesse um exame de toque e descobri que já estava com 5 cm de dilatação. Não acreditei, fiquei muito feliz e animada, pensando que tudo iria se resolver rápido. Doce ilusão!!!

Fomos para o quarto onde tudo aconteceria e Mayara rapidamente me perguntou se eu queria ir para o chuveiro, e correndo fui. Fiquei um tempo, mas hora sentia frio, hora calor e achei melhor sair do chuveiro. Depois um tempo (não sabia mais quanto tempo) com as contrações cada vez mais intensas, chegou a Renata com uma correria no olhar, mas com a calmaria nos gestos. Mais uma vez me senti acolhida! Decidimos colocar música, tentamos conversar um pouco, saía até uns sorrisos nos intervalos das contrações.

Já à noite, e eu só sabia que era noite porque consegui ver na fresta da cortina uma escuridão na rua, a canseira e as dores já estavam tão fortes, tão fortes que comecei a pensar numa analgesia. E Renata, sempre muito serena e firme, me encheu de elogios e força. Voltei para o chuveiro, saí do chuveiro, e um novo exame de toque, solicitado por mim foi feito. Para minha triste surpresa eu estava com 6,5 cm de dilatação. Fiquei abismada, pois achei que tivesse evoluído muito pouco. Mas claro que, doulas, médico e marido me convenceram do contrário. Para eles tudo estava correndo super bem e eu acreditei!

Diego quando não se arriscava nas massagens, durante as contrações, me dava suas mãos, num gesto de puro companheirismo e carinho. Suas mãos soavam em mim como algo que, independente do que acontecesse, ele estaria sempre ao meu lado.

O médico, discretamente entrava e saía do quarto. Ouvia os batimentos, me incentivava e isso me deixava bastante segura, pois sabia que ele estava ali por perto, não sabia onde, mas sabia que ele estava ali. Seguimos com as massagens, bolona, óleo, chuveiro, músicas, risadas, muita dor, discursos de incentivo e algumas declarações de amor, até que a bolsa se rompeu. Senti perfeitamente o que é uma bolsa se romper, a água escorrendo na bola que eu estava sentada e chegando aos meus pés suados. Neste momento, confesso que eu já estava tão absorvida por tudo que estava acontecendo que, hoje tenho a impressão, que sabia que o Vinícius estava prestes a chegar, e foi quando comecei a dizer que ele estava nascendo, estava nascendo... Pouco tempo depois, nessa mistura louca de tensão, dor e felicidade eu estava com 10 cm de dilatação e foi quando subi na cama com ajuda de Diego e do médico. Ali senti que chegava a minha hora, eu tinha que fazer tudo que eu sabia, tudo o que eu tinha me preparado, eu tinha que saber lidar com as sensações mais íntimas do meu corpo, eu tinha que obedecer ao meu instinto...

Continuei respirando fundo e convidei o Vinícius a chegar neste mundo, estava na nossa hora. Ele me ouviu! Quanto a mim, a última coisa que ouvi foi meu médico dizer: - “Estou vendo o cabelinho dele!” Isso soou nos meus ouvidos como uma fortaleza em meu corpo, e pensei que naquele momento ninguém e nada mais me seguraria para que meu filho nascesse. O tempo parou, eu não sentia mais as contrações, somente vontade de expulsar, não tinha dor, não tinha barulho, não tinha sofrimento....ali estava eu, instintivamente uma fêmea com toda força e determinação do mundo parindo sua cria. Senti uma paz tremenda, um silêncio repentino, uma solidão instantânea e um prazer imenso... Eu estava de cócoras encostada na cabeceira da cama, quando de repente, acredito que o transe mais profundo entre a vida e a “morte” se constituiu. A vida do meu filho chegando e a minha “morte” se consumando, pois sabia que depois de viver tal experiência nunca mais seria a mesma mulher, a mesma esposa, a mesma filha, a mesma pessoa...

Vinícius chegou rápido, calmo e com um chorinho suave. Quando me dei conta, lá estava meu médico sorrindo e me entregando ele em meus braços. Aconcheguei-o em meu peito e, como um feto, ele se acomodou, sem choro, somente uma busca no olhar e uma mãozinha no rosto.

E neste momento em que meu choro se misturava com um sorriso, Diego nos abraçou e eu descobri que a plenitude da felicidade e do amor tem cheiro, toque, carinho, emoção, aconchego, gratidão e reencontro...

Vinícius chegou neste mundo às 21h43 e nos nossos braços ficou. Seu primeiro contato foi de muito carinho e respeito. Não foi levado pra longe de nós (berçário) e não foram feitos procedimentos médicos desnecessários, ele foi cuidado com muito calor do meu corpo e do meu marido. Limpamos, acariciamos, abraçamos, beijamos e nos descobrimos ali mesmo. Sabíamos que nosso filho não poderia passar suas primeiras horas de vida em outro lugar, em outros colos, com outras vozes e cheiros, pois o que ele mais precisava para viver estava ali...

Agradeço imensamente minha família por ter confiado e acreditado em mim, em especial minha mãe, que mesmo se abalando com minhas decisões mergulhou fundo na espera do seu neto.

Aos velhos amigos, que me incentivaram e me acompanharam nesta descoberta da vida materna, as novas mães-amigas que, além de me mostrarem as possibilidades de viver intensamente a maternidade, me acompanham e me ajudam com as alegrias e as dificuldades que enfrento todos os dias.

Edson, Renata e Mayara, que mesmo por pouco tempo me fizeram acreditar na capacidade de viver este momento com muito respeito, segurança e gratidão.

Em especial agradeço ao Diego, que como parte do meu “ser”, gestou, pariu e hoje paterna lindamente nosso filho. Vinícius tem um pai sem limites ao seu lado e eu um amor eterno!

Por fim, agradeço ao meu filho Vinícius que me deu a oportunidade de viver o milagre da sua existência e me mostrou e mostra todos os dias o sentido da minha vida.

“Não há você sem mim, eu não existo sem você...”
(Vinícius de Moraes)

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