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Relatos de Parto

Nádia: Nascimento do Thor: Parto Normal Hospitalar
Nascimento do Thor: Parto Normal Hospitalar

Era o início de março de 2013 quando comecei a desconfiar que o meu sonho de ser mãe estava prestes a começar. Alguns dias de atraso menstrual, uma euforia imensa tomando conta de mim, não disse nada a ninguém. Dez dias depois, não aguentei mais a expectativa e contei ao Antonio. Ele disse que já desconfiava. Teste de farmácia no dia seguinte logo cedo! Ansiedade nas alturas esperando os benditos 5 minutos. Resultado POSITIVO! A alegria invade a família inteira, muita comemoração, alguns um pouco surpresos, mas todos super felizes pela chegada de mais um membro tão querido na família.

Foi uma gestação muito tranquila. Apenas duas semanas de enjoos que duravam o dia todo, mas não me tiravam o apetite. Um pequeno susto aos dois meses com um corrimentozinho rosa, que após os exames, não revelou nada de errado. Consultas que nos deixavam ainda mais felizes, pois estava sempre tudo excelente. No meio da jornada, rolou um estresse básico para encontrar um médico à altura para participar deste momento tão importante da nossa vida, sem querer ser um “ser superior”, que se acha no direito de decidir qual a melhor forma de trazer uma vida ao mundo, sem sequer levar em consideração a vontade dos pais, o fato de que estava tudo perfeito comigo e com o bebê e com quase cinco meses de antecedência ao parto! Ai, ai, nada que um bom grupo de apoio não resolvesse, rsrsrs, com dezenas de indicações, conselhos, dicas, chegamos lá, encontramos ele!

A escolha do nome foi complicada. Toda noite a gente deitava na cama e começava a falar todos os nomes que vinham a nossa cabeça. Era como “contar carneirinhos” para dormir, a gente falava uma lista enorme de nomes, acabava caindo no sono e não escolhia nada, nenhum nome se destacava. Eu só sabia que não queria um nome composto, não queria um nome da moda porque depois teria milhares de meninos da mesma idade dele com o mesmo nome e que gostava de nomes pequenos e fortes, por isso o que estava mais no topo da minha preferência era Cauã. O Antonio não concordava muito com esse e um dia, de repente, ele me disse: Thor. Achei estranho no início. Fiquei pensando no nome, repetindo várias vezes, gostei da sonoridade. Era pequeno e forte, do jeito que eu gostava. Fomos ver o significado. Estava decidido que seria esse! A família se dividiu, muitos não gostaram, ficaram nos questionando se seria esse mesmo, no fim já não conseguiam imaginar outro nome.

Quarenta semanas de gestação! Tudo correndo muito bem, duas consultas semanais, tudo ok, vamos esperar a vontade do Thor de sair! A família e amigos começaram a ligar, ainda não nasceu? Não, ainda não. Tudo preparado para a chegada dele. O Antonio feliz da vida, pronto para me acompanhar nesse momento tão especial para nós. Em duas das idas ao banheiro dessa semana, um pedacinho do tampão deu as caras. O coração disparava quando via ele lá, mas nem sinal do trabalho de parto começar. Limpei toda a casa, arrumei as malas, comi coisas apimentadas, caminhei quilômetros e nada do danadinho querer sair. Tranquilão, como sempre. E eu ótima como sempre. Não sentia nada, não tinha dor nenhuma, continuava sentindo só as contrações de treinamento, como já sentia há algumas semanas.

No dia 12 de novembro, consulta de novo, 41 semanas! Tudo certo novamente. Confesso que comecei a ficar preocupada, até 42 semanas eu ia tranquila, mas e se passasse das 42? Questionei o médico até quando iríamos esperar, ele não estipulou datas, mas marcou retornos menos espaçados e tentou me tranquilizar, dizendo “quem sabe ele nasce antes de chegarmos às 42, não é?”. O Antonio se despediu dele e disse: “Doutor, deixe seu celular ligado e por perto que essa noite vou te ligar!”. Demos risada. Nessa mesma noite, fomos ao encontro do Maternati. Carinhas de espanto ao me ver por lá ainda com aquele barrigão imenso! Passou a listinha para colocarmos os nossos e-mails, telefones e data provável do parto. A minha já tinha passado uma semana, coloquei pontinhos de interrogação, rsrsrs. O Antonio escreveu: hoje!

Eram 02:10 horas da madrugada. Acordei com uma vontade insuportável de ir ao banheiro. Como sempre fazia, não acendi luz nenhuma, fui lá meio dormindo, meio acordada. Fazer xixi e voltar pra cama, umas seis vezes por noite, essa era a rotina noturna nas últimas semanas. Quando tirei a calcinha para sentar no vaso, senti que ela estava molhada. Pensei: droga, já fiz xixi nas calças! E assim que sentei no vaso saiu àquela cachoeira de água, uma quantidade muito grande e com muito mais força do que o normal. Meu coração disparou! Naquele momento eu já sabia que eu estava em trabalho de parto. Acendi a luz correndo, olhei dentro do vaso, tudo cor de rosinha! Voltei para o quarto, o Antonio estava dormindo. Tentei acordar ele delicadamente, mas assim que toquei seu braço, ele deu um pulo na cama. ”Acho que a bolsa estourou”. Ele acendeu a luz assustado, perguntando da mala, onde está a mala, vou ligar para o médico, vou ligar para a Renata (nossa doula), rsrsrs. Eu disse “calma, ainda não estou sentindo as contrações, temos que ver o tempo entre elas antes de ligar e até para ter a certeza que foi a bolsa que rompeu mesmo”. E foi só falar isso que veio uma. Era uma pressão maior do que as de treinamento, a barriga ficou durinha, uma dorzinha ainda fraca na região lombar, ficava assim uns 10 segundos e parava. Começamos a marcar o tempo. Estavam vindo de 10 em 10 minutos. Ele pegou o telefone e ligou para o médico primeiro, ele nos disse que estava tudo bem e íamos acompanhar e esperar até às seis da manhã, daí era para ligar para ele novamente. Em seguida ele ligou para a Renata, ela também nos tranquilizou dizendo que estava correndo tudo bem e nos aconselhou a tentar dormir e descansar enquanto as contrações estavam assim.

Mas quem disse que conseguimos dormir? Era muita ansiedade, a expectativa da chegada do nosso bebê, de saber se tudo ia correr bem, sem falar que, como as contrações estavam de 10 em 10 minutos, quando eu ia pegar no sono, acordava novamente com outra. E assim foi até amanhecer, elas ficando cada vez mais fortes, mas ainda com o mesmo intervalo. De manhã ligamos para o médico e ele pediu para irmos para a maternidade que ele ia nos encontrar lá. Avisamos a Renata e assim fizemos. Chegamos à maternidade umas sete e pouco da manhã, a partir de agora não vou saber mais dizer a que horas as coisas aconteceram, perdi a noção do tempo. Um pouco de espera para dar entrada no quarto. O Antonio já estava ficando nervoso com a demora, marcamos de novo o intervalo das contrações, estavam de 8 em 8 minutos. O médico chegou, graças a Deus, falou com a moça da portaria e nos levou lá para dentro para me examinar, estava com 3 centímetros de dilatação. Depois mais um pouco de espera para fazer o bendito cardiotoco e as contrações aumentando, tanto de intensidade, como de frequência. Finalmente fomos para o quarto, que alívio, pude fazer o que estava com vontade de fazer, deitei, sentei, agachei em cada contração. Marcamos novamente o intervalo, 6 em 6 minutos.

Não sei dizer quando a Renata chegou, mas sei que foi logo. Chegou sorridente, com um ar tranquilo e sereno, fez algumas perguntas, algumas já foi o Antonio que respondeu, eu já estava meio fora de mim. Lembro que ela começou a encher a bola com ele, e a enfermeira me perguntou sobre as roupinhas que o Thor ia vestir quando nascesse. Acho que escolhi a roupa, não sei, não me lembro, rsrsrs. Se a partolândia é realmente o momento em que a mulher perde a noção das coisas, entra num mundo só seu, do parto e do seu bebê, eu fiquei bastante tempo por lá, porque dessa hora até o nascimento eu não me lembro de mais nada com muita clareza, não tive mais noção das horas, não sei se eu respondia o que me perguntavam. A única coisa que lembro bem são as imagens. Vários flashes estão muito nítidos até hoje na minha memória. Lembro que minha mãe e minha irmã apareceram no quarto, preparadas para ficar algumas horas, achávamos que as contrações iam vir devagar, bem espaçadas, nos intervalos íamos rir e conversar, preparei um pen drive com músicas para ouvir durante a espera. Não deu tempo para nada disso, rsrsrs. Elas foram embora logo, disseram que voltavam após o parto, todos nós achamos que não ia demorar muito e ele já ia nascer. Lembro que o médico apareceu algumas vezes no quarto para ver como eu estava, perguntava para a Renata o intervalo das contrações e ia embora. Lembro que fui para o chuveiro algumas vezes, usei a bola, deitava, agachava na banqueta de parto, o Antonio e a Renata o tempo todo fazendo massagens. Não sei quanto depois de tudo isso acontecer, as contrações já estavam muito fortes, eu sentia aquela onda vindo, primeiro devagar, depois a barriga ficava dura, muito dura, nessa hora vinha aquela onda de dor, eu tentava respirar, a respiração ficava difícil. Alguns segundos depois passava, mas o intervalo já não dava mais para descansar.

O médico apareceu de novo, perguntou o intervalo das contrações. Já estavam de 1 em 1 minuto. Ele ficou lá, colocou alguma coisa na minha barriga para sentir a intensidade, e ouvi ele dizer que a força delas já era de expulsão. Disse que ia me examinar novamente. Achei que estava prestes a ver o rostinho do meu filho, que ele já ia nascer, pois a dor estava muito intensa a essa altura. Para minha surpresa (e confesso, nessa hora muita frustração), ele disse que estava apenas de 4 para 5 centímetros. Puxa, aquilo me derrubou um pouco. Se eu já estava sentindo aquilo tudo, sem intervalos para descanso, sentia vontade de fazer força e já estava cansada, pois não tinha dormido nada e nem comido, até quando eu iria aguentar? Acho que perguntei isso em voz alta para o Antonio, pois ele tratou de me animar, disse que eu estava indo bem, o tempo todo ele me encorajava, me massageava, me abraçava, me fazia carinho. Quanto amor, paciência e ternura ele demonstrou nesse momento que era só nosso. Naquela hora eu já sabia que ele seria o melhor pai do mundo! Mas eu lembro que nessa hora falei pra ele que eu não ia aguentar. Disse que eu estava cansada e não estava progredindo nada. O médico ofereceu então uma alternativa: tentarmos aplicar uma medicação que diminuísse as contrações, desacelerasse um pouco o trabalho de parto para tentarmos esperar a bendita dilatação que estava mais lenta. Concordei na hora, era um alívio pensar que eu ia poder descansar um pouco. E assim foi feito.

Acho que isso tudo aconteceu por volta do meio dia. Lembro que ouvi falar em almoço, não sei se o Antonio saiu para almoçar ou comeu ali mesmo, nessa hora consegui cochilar por alguns minutos. A Renata também saiu para comer, voltou logo. Foi rápido, pouco tempo passou e as contrações voltaram com a mesma intensidade e velocidade. De novo eu deitava, levantava, agachava, ia para o chuveiro, voltava, usava a banqueta de parto. E nenhum sinal de progresso. E o Antonio do meu lado, me encorajando! E a Renata dizia que eu estava indo bem, mas comecei a não acreditar nos dois. Por que nada mudava? Por que ele não nascia logo? Quando o médico veio novamente e me examinou, tudo que eu queria ouvir era que já dava para ver a cabecinha dele, como a gente vê nas filmagens de partos. Mas não, pelo contrário, nenhum progresso na dilatação. Nessa hora desmoronei. Disse novamente ao Antonio que eu não aguentava mais, que queria desistir. Pedi a ele que fizessem alguma coisa, que eu já não estava aguentando mais.

O nosso médico então nos deu mais uma alternativa. Como é bom ter um profissional de verdade do nosso lado nessa hora. Ele queria fazer o mínimo de intervenções possíveis. E se eu já estava desistindo nessa hora, ele não! O plano agora era tentar reduzir o resto do colo do útero que faltava, para ficar com dilatação total e ver se o bebê finalmente descia. E novamente assim foi feito. Nessa hora a dor foi muito grande. E o Antonio ao meu lado, me abraçava com força, me dizia que eu ia aguentar. Mais algumas horas de contrações, de espera, de dor e ansiedade. Agora tinha que dar certo, eu já falava “vem meu filho, vem” a cada contração. Mas ele não vinha e o cansaço já tomava conta de mim. Senti que eu não tinha mais forças. Meus braços e pernas tremiam, pareciam meio dormentes. Novamente o médico me examinou. Nenhum progresso, o bebê não tinha descido, apesar da dilatação agora ser total. Ouvindo isso, lembro que eu falei: façam alguma coisa, qualquer coisa, não aguento mais, não tenho mais forças. E o médico nesse momento também disse que não podíamos mais esperar. Que agora tínhamos que fazer algo. Eu achei que a única coisa a fazer seria partir para a temida e indesejada cesárea. Nessa hora passaram várias coisas pela minha cabeça. Senti uma frustação enorme de ter chegado até ali e pensar que não ia conseguir. Apesar da gente sempre conversar e falar que seria como Deus quisesse que fosse, que a gente faria tudo que estivesse ao nosso alcance e que o importante era que esperamos a hora que ele escolheu para nascer, a frustração era inevitável naquele momento. Consegui me imaginar dizendo a todos: “tentei um parto normal, mas tive que fazer cesárea, não consegui, tal coisa aconteceu”. E novamente surge o profissional maravilhoso que encontramos. Enquanto outro qualquer já teria feito há muitas horas uma cesárea, ele nos dá mais duas alternativas: ou eu fazia a analgesia para tentar relaxar um pouco e vermos se o bebê descia ou ele aplicaria uma dose de ocitocina para dar ainda mais força às contrações e ajudar a expulsão. Ele explicou que a opção que ele preferia era a ocitocina ao invés da analgesia, pois esta, querendo ou não, ia afetar um pouco o bebê. Pensei, “meu Deus, um medicamento para deixar as contrações ainda mais fortes? Tem jeito de ficarem ainda mais fortes? Não sei se aguento!”. O Antonio me perguntou o que eu queria fazer, o que eu escolhesse ele estaria junto comigo. A decisão tinha que ser minha.

Vieram duas enfermeiras, me vestiram e me transferiram para a maca, eu quase não tinha forças para me mexer. Tive que ir para o centro cirúrgico. Lembro de passar pelos corredores, estava de olhos fechados e sentia as lágrimas correndo pelo meu rosto. Abri os olhos algumas vezes, vi pessoas me olhando, só conseguia pensar no meu filho. Não sabia quanto tempo ainda tinha pela frente até ver o rostinho dele e o que ia acontecer naquele centro cirúrgico. O Antonio e a Renata sumiram, tinham ido se preparar para ir para lá também. Daqui a pouco entraram o médico e o Antonio. Não sei quando a Renata veio, mas foi logo, pelas fotos soube disso depois. Eu já estava preparada, na mesa de cirurgia, o Antonio sentou do meu lado, vi a sala cheia de gente, muitas luzes. O médico aplicou a ocitocina e a coisa foi imediata! Meu Deus, que contração forte! E todo mundo falava “vai, vai, tá nascendo, força, força!”. O Antonio todo emocionado, “força amor, tô vendo a cabecinha dele, vai, força!”. E o médico também, ouvi ele dizer, “força, agora tem que nascer, o coraçãozinho dele está parando!”. Não sei se ele disse isso mesmo ou se eu delirei, mas aquilo me deu a força final que faltava! Terceira contração depois da ocitocina e o Thor quase pulou das mãos do médico! Vi o cabelinho preto dele e a pediatra o pegando das mãos do médico. Meu Deus, que emoção, as lágrimas rolavam, eu e o Antonio chorando, ele me beijava e dizia “nosso filho amor, nosso filhão nasceu!”.

O Antonio levantou e foi atrás da pediatra. Senti um alívio enorme, o chorinho dele parecia uma música suave, me acalmou o coração. O médico me deu os parabéns e disse que ele estava bem. A placenta saiu logo em seguida, ele foi puxando devagarinho, não senti nada. Sumiu todo mundo, ficou um silêncio danado, fiquei só eu, o médico e duas ou três enfermeiras na sala. Ele me disse que ia dar os pontos, pois tinha lacerado um pouquinho e ele teve que fazer a episiotomia. Eu nem tinha sentido nada. De repente, entra o Antonio de volta, com aquele pacotinho nas mãos, as lágrimas escorrendo, a máscara toda molhada, coloca ele no meu colo. Foi a visão mais linda de toda a minha vida. Aquele rostinho redondo, todo inchadinho, o cabelinho molhado grudado na cabecinha. E o cheiro, meu Deus, até agora sinto aquele cheirinho delicioso de vida! Ficamos ali assim, curtindo nosso encontro, os três abraçadinhos, eu falava baixinho no ouvidinho dele, ele dava um chorinho de vez em quando. Levaram ele para o berçário, me levaram de volta para o quarto e algum tempo depois me trouxeram aquele embrulhinho maravilhoso novamente. Ele não quis mamar na hora. Ficou ali dormindo nos meus braços, tranquilinho. Quando acordou, mamou um monte, com toda a força que ele tinha! É realmente extraordinário ser mãe, trazer uma vida ao mundo. Só Deus mesmo para tamanha perfeição.

E assim, às 17:05 horas do dia 13 de novembro, veio ao mundo Thor, o nosso Deus do Trovão. Veio como uma tempestade, imponente e magnífico. Assim como os raios e trovões me causou medo em alguns momentos. Mas assim como a chuva, trouxe vida e renovação. E nos provou, mais uma vez, que a natureza é perfeita e soberana. Tudo não poderia ter sido mais perfeito. Faria tudo de novo, da mesma forma se fosse preciso.

 

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